terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Comentário Bíblico Mensal: Dezembro/2019 - Capítulo 1 - Lei e Graça - Princípios Basilares do Âmbito Cristão




Comentarista: Emanuel Barros



Texto Bíblico Base Semanal: Romanos 2.3-16

3. E tu, ó homem, que julgas os que fazem tais coisas, cuidas que, fazendo-as tu, escaparás ao juízo de Deus?
4. Ou desprezas tu as riquezas da sua benignidade, e paciência e longanimidade, ignorando que a benignidade de Deus te leva ao arrependimento?
5. Mas, segundo a tua dureza e teu coração impenitente, entesouras ira para ti no dia da ira e da manifestação do juízo de Deus;
6. O qual recompensará cada um segundo as suas obras; a saber:
7. A vida eterna aos que, com perseverança em fazer bem, procuram glória, honra e incorrupção;
8. Mas a indignação e a ira aos que são contenciosos, desobedientes à verdade e obedientes à iniquidade;
9. Tribulação e angústia sobre toda a alma do homem que faz o mal; primeiramente do judeu e também do grego;
10. Glória, porém, e honra e paz a qualquer que pratica o bem; primeiramente ao judeu e também ao grego;
11. Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas.
12. Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados.
13. Porque os que ouvem a lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados.
14. Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei;
15. Os quais mostram a obra da lei escrita em seus corações, testificando juntamente a sua consciência, e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os;
16. No dia em que Deus há de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho.

Momento Interação

Não é incomum encontrarmos no seio do cristianismo o conceito de uma dicotomia entre lei e graça, lei e evangelho, e entre Antigo e Novo Testamento. De fato, este conceito é bastante difundido entre os cristãos, sobretudo formado pela leitura de textos bíblicos como o destacado acima. Contudo, antes de impormos à Bíblia uma dicotomia entre o que aparenta ser duas administrações opostas do plano redentor de Deus para o homem, precisamos voltar a Escritura a fim de averiguarmos a existência de tal polarização. A fim de sermos honestos para com a revelação especial de Deus, é mister que procuremos não somente evidências cabais para concluirmos dicotomias como essas, mas também que nos questionemos previamente se tais interpretações derivam de uma análise cuidadosa do texto sagrado ou se enxergamos no texto o resultado de concepções artificiais assumidas por nós de antemão. No caso da popular separação entre lei e graça ou lei e evangelho, busquemos, mediante a Escritura, averiguar sua veracidade. Para tanto, precisamos partir das definições de “lei” e “graça” e as aplicarmos aos termos correlatos que, normalmente, podem apontar para essa distinção.

Introdução

Algumas pessoas, às vezes bem intencionadas, acreditam que a lei e a graça são aspectos da religião cristã que não se harmonizam. Elas dizem: “Cristo aboliu a lei na cruz do Calvário” ou “O Antigo Testamento corresponde ao período da lei e o Novo Testamento é a dispensação da graça”. Já ouviu essa conversa? Essas pessoas colocam a lei e a graça no ringue de luta e, antes de soar o gongo, dão à graça vitória por nocaute. O texto chave para esse estudo é Efésios 2.8-10: “Porque pela graça sois salvos mediante a fé e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feituras dEle, criados em Cristo Jesus, para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”. Algumas coisas precisam ficar claras em nossa mente. 

Nós matamos o Filho de Deus, e, mesmo assim, Ele nos aceita, perdoa e convida para morar com Ele nos Céus. A Bíblia Sagrada nos diz em João 1.11,12 que Jesus “veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus”. Esse é o absurdo do amor de Deus, ciência que estudaremos por toda eternidade. Aceitar a graça de Deus em nossa vida é a maior honra que podemos ter nessa vida. Essa honra será completa se vivermos de acordo com a graça que recebemos de Deus. Para isso, Deus nos deixou os dez mandamentos, expressão da vontade de Deus para nós.

I. Definindo os termos Lei e Graça

A palavra “lei” é usada na Bíblia em diferentes sentidos, e não podemos ignorar este fato sob a penalidade de deformarmos o significado da Escritura. Como exemplo, no Antigo Testamento, o termo “lei” é encontrado com sentido de revelação da vontade de Deus (Sl 119; Is 8.20) e se referindo ao Pentateuco (Js 1.7). No Novo Testamento, os mesmos usos da palavra “lei” estão presentes. Ademais, quando a porção neotestamentária estabelece comparações entre lei e graça ou lei e evangelho, normalmente emprega a palavra “lei” ora metonimicamente, enfatizando uma administração da obra redentora anterior à vinda de Cristo (Mt 11.13; At 25.8), ora se referindo à lei cerimonial, que tipificava a própria obra de Cristo, sendo, por isso, suplantada na consumação da obra vicária (Gl 3.24). Portanto, é de suma importância identificarmos, nas passagens que estudamos, o sentido da palavra “lei” intencionado pelo autor bíblico.

Por sua vez, graça é definida como a bondade e o amor de Deus aplicados imerecidamente ao homem. Textos como Gênesis 6.8, 1 Coríntios 15.10 e Efésios 2.8 ilustram o conceito bíblico de graça. Destarte, temos aqui um ponto pacífico: se quisermos compreender de forma acurada os textos bíblicos, que aparentemente contrapõem “lei” e “graça”, é necessário que tenhamos em perspectiva o uso correto dos termos.

II. Lei e Graça: há uma dicotomia?

Diante das corretas definições de lei e graça, podemos verificar se há realmente uma dicotomia entre esses conceitos quando eles são contrastados pelos autores bíblicos. Sendo o termo “lei” empregado em tantos contextos e a palavra graça se referindo ao amor, à misericórdia e à bondade divina dirigidos ao homem, existe realmente uma polarização entre lei e graça? Já pela definição dessas palavras, vemos que nenhuma dicotomia entre lei e graça pode ser construída como se fossem conceitos, expressões ou operações mutuamente excludentes. Não há nada que coloque em oposição excludente a lei (em qualquer dos usos nos quais o termo é empregado) e a graça. Outrossim, fora o usual contraste terminológico, no qual não há uma oposição – nem sequer implícita – , podemos nos perguntar se poderia haver algum contraste de natureza teológica. Seria a lei algo que se opõe à graça? A graça é boa e a lei ruim e obsoleta? Vejamos:

O Antigo Testamento diz que é feliz o homem que medita na lei dia e noite (Sl 1.2). Se o homem que medita na lei do Senhor é bem-aventurado, como pode a lei ser oposta à graça, ao amor e à bondade de Deus? Não seria ela uma vívida expressão e uma evidência dessa graça? O Salmo 19:7 diz: “A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma”. Ainda na literatura poética, o Salmo 119.29 contrasta o caminho da falsidade com a graça da lei de Deus. Observe: o contraste está entre a falsidade e a lei/graça. No mesmo Salmo 119, o poeta declara: “Deleitar-me-ei em teus mandamentos, que eu amo” (v.47). Entre outros exemplos em potencial, em Josué 22.5 há um claro paralelo entre amar a Deus servindo-o de todo o coração e guardar sua lei, e tal paralelo ecoa vigorosamente por toda a Bíblia, estendendo-se, inclusive, ao Novo Testamento.

Entrementes, o Novo Testamento não apresenta um conceito diferente da lei do Senhor. O próprio Jesus, em Mateus 5.18, diz que nada se excluirá da lei divina até que tudo seja cumprido, referindo-se à consumação dos séculos. Jesus também diz, numa declaração contundente, que a lei, a justiça, a misericórdia e a fé estão indissociavelmente ligadas (Mt 23.23). Em Romanos 2.15, Paulo diz que o ser humano tem a lei de Deus impressa em seu coração, testemunhando-lhe a existência de uma ética superior, transcendental e eterna, e apontando para a realidade de um Deus criador. Paulo também diz que a fé não anula a lei, antes, a confirma (Rm 3.31). O texto de Romanos 7.12 assevera: “(…) a lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom”.

III. A Realidade da Lei e da Graça

Uma das razões pelas quais grande parte dos cristãos se mostra avessa à lei ou adepta de um conceito antagônico de “lei” e “graça” é que, muitas vezes, essas pessoas assumem que a lei veterotestamentária era uma via de salvação provisória e rudimentar, caracterizada como uma antessala para o advento de Cristo, por meio do qual a verdadeira salvação chega e consolida-se. Se alguém busca justificação diante de Deus por meio do cumprimento da lei, já está condenado. Mas, se alguém a utiliza como ela foi feita para ser usada – ou seja, para conhecimento do caráter de Deus, observação de seus padrões de santidade, orientação ética e exercendo fé em Cristo para a salvação – essa pessoa faz correto uso da lei. Com efeito, tal pessoa utiliza a lei exatamente da maneira a que ela foi feita para ser utilizada. Porém, se uma pessoa faz um uso errado da lei, sendo este farisaico, o uso indevido não pode ser imputado como demérito à lei, pois a própria lei nunca intentou ser uma via soteriológica independente da substituição vicária de Cristo! A antiga aliança prometeu justificação fundamentada no nome: ‘O SENHOR é a Nossa Justiça’ (Jr 23.6)”. Segue-se assim, excluindo sua porção cerimonial, a qual foi suplantada pelo advento e obra de Cristo, que a lei é totalmente válida e boa para os crentes do Novo Testamento; e o uso equivocado que alguns podem fazer dela não torna inválida sua qualidade intrínseca, dentro das funções para as quais ela existe.

Conclusão

Diante do fato de que o Novo Testamento não deprecia a lei de Deus, tendo-a em alta conta, é preciso interpretar corretamente as passagens que mostram uma contraposição entre lei e graça. Como exemplo, tomemos o versículo destacado no início deste artigo: “Porque a lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1.17). O que este verso diz realmente? Ele não está dizendo que a graça é oposta a lei ou vice-versa. Está tão somente comparando a administração mosaica como expressão da graça de Deus ao advento de Cristo, na qualidade de cúmulo dessa expressão. Em outras palavras, a graça divina não estava ausente no sistema mosaico, de maneira alguma. Contudo, a graça foi plena e perfeitamente abundante na administração da Nova Aliança, consumada pela morte expiatória de nosso Senhor. Assim, este texto de João apenas salienta que a graça e o amor de Deus foram expressos em sua plenitude na encarnação do Verbo e na realização de sua obra, acontecimentos para os quais a lei apenas apontava (com a circuncisão, o sacerdócio, o templo, os sacrifícios, etc.), mas não que a lei não fosse, em si mesma, uma expressão da graça divina.

Outro tipo de texto comumente utilizado à parte de uma aproximação mais cuidadosa é aquele que afirma a extinção da lei pelo advento e obra de Cristo. Como exemplo, tomemos Gálatas 2.21: “Não faço nula a graça de Deus; porque, se a justiça vem mediante a lei, logo Cristo morreu em vão”. Uma afirmação como esta pode ser facilmente mal interpretada e facilitar a conclusão de que a lei é má para o crente do Novo Testamento, além de se opor ao advento do evangelho. Mas o que Paulo está dizendo aqui é que ninguém é salvo por meio do cumprimento da lei, pois nenhum homem pode cumpri-la. Cristo, sendo Deus, cumpriu a lei totalmente, e aqueles que estão unidos a Cristo têm a justiça dele imputada a si. Logo, se alguém julga ser aceito por Deus pelo viés da justiça própria, para esta pessoa Cristo morreu em vão.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Lei e Graça - Temas Basilares da Doutrina Cristã




Por Leonardo Pereira


Se existe um assunto que sempre vai em discussões acerca das doutrinas das Escrituras Sagradas, certamente entra nesta temática as doutrinas da lei e da graça de Deus. Isto vem de épocas e não somente traz conflitos de dúvidas quanto os detrimentos de uma ou de outra. O fato é que muitos hoje não explicam claramente sobre a lei e a graça. Existem muitos ensinamentos bíblicos que ao invés de abordarem amplamente sobre ambas as temáticas, existem estudos que tratam com desdém em muitos pontos da graça e também da lei. Ainda que haja diferenças de modo de vida e de características do evangelho para o período da Lei, ambas possuem a sua imensa importância para a nação de Israel, as demais nações, para a Igreja Primitiva e sobretudo, para a igreja triunfante. Neste artigo, procuro abordar um pouco de ambas de maneira que os estudos tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, se complementem partindo da velha aliança para a nova, do vinho velho para o novo, dos sacrifícios para o caminho vivo e com livre acesso completo e direto para com o Pai de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Falemos acerca da lei, da graça, da antiga e da nova aliança voltados para Israel, as demais nações e agora, para a Igreja de Deus.

O que é a Lei?

Quando se fala da “Lei” é bom especificar a qual refere pois pela Bíblia, existe várias leis e significados da palavra “lei”. A lei pode ser a ordem de eventos estabelecida (lei da luz, som e da relação entre os elementos químicos). Neste caso as leis podem ser interpretadas simplesmente como fatos. A lei pode ser também a força que causa a ordem de eventos (lei da gravidade, de calor, da eletricidade, do pecado, etc.). A lei pode referir-se também àquela que obriga a consciência à moralidade. Por existir uma norma há obrigação de conformidade à ela (à lei moral que não é escrita ou à qualquer lei que é escrita enquanto tem uma operação legítima). Na Bíblia, ao referir à lei de Moisés, não se acha a distinção de lei “moral”, “cerimonia” ou “civil” mas somente: “lei”, “lei do Senhor”e “lei de Moisés”. Nisso podemos entender que aquele chamada popularmente “O Decálogo” é só parte da lei e não “a lei” em si.

A Lei em sua Completude

Há muitos que querem distinguir o decálogo como a mais importante parte da lei, a parte moral, e as outras partes, as cerimonias ou civis, inferiores. Essa distinção popular não é uma distinção bíblica. O decálogo, os dez mandamentos, não são a única moral na lei, mas, faz parte do que foi dada a Moisés no monte, escrito pelo dedo de Deus, é parte de que é dado pela inspiração e escrito pela mão de Moisés.  É claro que a lei tem as partes morais, cerimônias e civis. Essas partes, em si, não são distinguidas como sendo maior ou menor da “lei” mas contrariamente, a própria lei. A parte cerimonial (sacrifícios) é chamada “lei” (Lc 2.27). A parte moral é chamada “lei” (1 Tm 1.9). A parte civil é chamada “lei” (At 23.3).

A Bíblia se refere à lei como sendo os cinco livros do Pentateuco. As palavras “A Lei” na Bíblia geralmente se referem a Lei Mosaica, ou ao Pentateuco” (Dicionário Smith, citado por Canright). Pode entender isso comparando o resto da Bíblia com o Pentateuco. Entenderá que a Bíblia distingue o Pentateuco como sendo a lei. Gênesis é a lei (1 Co 14.34; Gn 3.16); Êxodo é a lei (Rm 7.7; Êx 20.17); Levítico é a lei (Mt 22.39; Lv 19.18); Números é a lei (Mt 12.5; Nm 28.9) e Deuteronômio é a lei (Mt 22.36, 37; Dt 6.5).

Maravilhosa Graça

A definição encontrada em um dicionário para o termo graça é a seguinte: “O favor imerecido que Deus concede ao homem”. Embora tal definição seja verdadeira, é incompleta. Graça é um atributo de Deus, um componente do caráter divino, demonstrada por Ele através da bondade para com o ser humano pecador que não merece o Seu favor. Um Deus santo não tem nenhuma obrigação de conceder graça a pecadores, mas Ele assim o faz segundo o bem querer da Sua vontade. Ele demonstra graça ao estender Seu favor, Sua misericórdia e Seu amor para suprir a necessidade do ser humano. Visto que o caráter de Deus é composto de graça, movido por bondade Ele espontaneamente se dispõe a conceder Sua graça à humanidade pecadora em nosso tempo de aflição.

A graça de Deus pode ser definida como “aquela qualidade intrínseca do ser ou essência de Deus, pela qual Ele, em Sua disposição e atitudes, é espontaneamente favorável” a outorgar favor imerecido, amor e misericórdia àqueles que Ele escolhe dentre a humanidade desmerecedora. Ao longo de toda a Bíblia, a graça de Deus se manifestou em três estágios. No primeiro, Deus revelou Sua bondade e graça ao demonstrar misericórdia, favor e amor para com todos os homens em geral, mas para com Israel em particular. No segundo estágio, Deus expressou ou apresentou Sua graça, de forma mais clara, através de Jesus Cristo, o qual veio ao mundo para pagar pelos pecados do homem mediante Sua morte sacrificial na cruz. No terceiro, a graça de Deus proporciona salvação e santificação a todos os que, pela fé, confiam em Jesus Cristo como Salvador e Senhor de suas vidas.

De Lei caminhando para a Graça

A verdade é que com Deus “não há mudança nem sombra de variação” (Tg 1.17; Ml 3.6; Hb 1.11,12; 13.8). Em qualquer época, a verdade eterna é: se existe salvação existe a graça de Deus. Sem a graça de Deus não há salvação (Ef 2.8,9). Disso podemos entender, se houve salvação no Velho Testamento, houve graça também. A graça que veio por Cristo não foi para destruir a lei ou os profetas, mas para a cumprir (Mt 5.17). Pela fé em Cristo Jesus a lei é estabelecida porque a lei simbolizava a graça e apontava a Ele (Rm 3.21-31). O fim, quer dizer o alvo, propósito, finalidade ou objetivo, da lei era Cristo (Rm 10.4) e não contraria a Ele. A lei sempre estava no coração de Cristo e Ele a amava pois a Lei revela o desejo de Deus (Sl 40.6-8; Hb 10.3-12). A Lei de Moisés e a graça por Cristo não são opostos, mas, duas partes de um mesmo sistema. A lei apontou a Cristo, e, Cristo cumpriu a lei (cf. Gl 3.21-26).

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Comentário Bíblico Mensal: Novembro/2019 - Capítulo 5 - A Adoração Eterna da Igreja ao Senhor




Comentarista: Oliveira Silva



Texto Bíblico Base Semanal: Apocalipse 19.1-11

1. E, depois destas coisas ouvi no céu uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia! A salvação, e a glória, e a honra, e o poder pertencem ao Senhor nosso Deus;
2. Porque verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que havia corrompido a terra com a sua fornicação, e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos.
3. E outra vez disseram: Aleluia! E a fumaça dela sobe para todo o sempre.
4. E os vinte e quatro anciãos, e os quatro animais, prostraram-se e adoraram a Deus, que estava assentado no trono, dizendo: Amém. Aleluia!
5. E saiu uma voz do trono, que dizia: Louvai o nosso Deus, vós, todos os seus servos, e vós que o temeis, assim pequenos como grandes.
6. E ouvi como que a voz de uma grande multidão, e como que a voz de muitas águas, e como que a voz de grandes trovões, que dizia: Aleluia! pois já o Senhor Deus Todo-Poderoso reina.
7. Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória; porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou.
8. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos.
9. E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E disse-me: Estas são as verdadeiras palavras de Deus.
10. E eu lancei-me a seus pés para o adorar; mas ele disse-me: Olha não faças tal; sou teu conservo, e de teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus; porque o testemunho de Jesus é o espírito de profecia.
11. E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça.

Momento Interação

O apóstolo Paulo descreve perfeitamente a verdadeira adoração em Romanos 12.1-2: "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus". A adoração a Deus parte de um desejo sincero de agrada-lo, de prestar a Ele a honra merecida, de exaltar suas maravilhosas e inigualáveis habilidades. Por ser a adoração algo espiritual, ela ecoa por toda a eternidade. Só Deus é digno de nossa devoção, louvor e adoração. Ele é Deus, o nosso Criador e somos ordenados a louvar e adorá-lo. Salmo 96.9 diz: "Adorem ao Senhor no esplendor da sua santidade; tremam diante dele todos os habitantes da terra." Salmo 29.2 diz: "Atribuam ao Senhor a glória que o seu nome merece; adorem o Senhor no esplendor do seu santuário". 

Introdução

Mateus 8.1-8 exemplifica uma oração que agrada ao Senhor. Esses versículos relatam dois milagres da graça de Deus: “Ora, descendo ele do monte, grandes multidões o seguiram. E eis que um leproso, tendo-se aproximado, adorou-o, dizendo: Senhor, se quiseres, podes purificar-me. E Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero, fica limpo! E imediatamente ele ficou limpo da sua lepra” (vv.1-3); “Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, apresentou-se-lhe um centurião, implorando: Senhor, o meu criado jaz em casa, de cama, paralítico, sofrendo horrivelmente. Jesus lhe disse: Eu irei curá-lo. Mas o centurião respondeu: Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; mas apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado” (vv.5-8). Aqui encontramos três princípios da oração legítima. A fé declara: “Senhor, Tu podes!” O temor a Deus complementa: “Se Tu quiseres”. E a humildade acrescenta: “Não sou digno!”.

I. A Vida Cristã como Adoração ao Senhor

Paulo afirmou que a verdadeira adoração é aquela que se oferece a Deus pelo Espírito, não confiando na carne, mas gloriando-se em Cristo Jesus (Fp 3.3). Tanto as palavras de Jesus como as de Paulo contrastam a verdadeira adoração com o culto judaico ou samaritano, que envolvem sacrifícios e ritos religiosos tradicionais. Em certa ocasião os fariseus e escribas acusaram os discípulos de Jesus de não cumprirem a tradição dos anciãos. Jesus então lhes respondeu citando Isaías 29.13, que menciona que os judeus religiosos ofereciam ao SENHOR culto que não o agradava: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mc 7.6-7).  Percebe-se então que adorar a Deus requer que aquele que se aproxima do SENHOR, para adorá-lo, guarde-se de uma vida pecaminosa, indiferente aos seus mandamentos, porquanto sua adoração será sem sentido; será uma falsa adoração, mesmo que os atos sejam completos. Se Deus quer verdadeiros adoradores, ele só se alegrará com aqueles que correspondem às suas exigências. Ele rejeita a liturgia dos “anciãos” ou a da denominação à qual pertencemos, se esta não for bíblica. De modo semelhante aos romanos, se o ventre for o nosso deus (Fp 3.19), o culto que oferecermos será abominação e insulto a Deus, três vezes Santo (Is 6.3). Além disso, devemos lembrar sempre que o contato real e permanente com Deus não deixa de ter seus reflexos na vida daquele que cultua.

II. A Igreja adorando ao Senhor

Sabedoria e santidade de vida unem-se na carta de Tiago, onde se afirma que essa sabedoria tem sua origem no “alto”, isto é, na pessoa de Deus. Por isso, ela é “pura… plena… de bons frutos… sem fingimento” (Tg 3.17). Se um culto realizado não tem o objetivo fundamental de tornar Deus real e pessoal, é costume incluir-se “feno e palha” que não edificam os participantes e nem exaltam ao SENHOR. A maneira como uma igreja adora reflete a teologia da comunidade. Os teólogos de Westminster, que compuseram a famosa confissão e catecismo no século XVII, criam que o principal alvo do homem era glorificar a Deus e alegrar-se nele eternamente. Para essa finalidade fomos criados. Para isso Jesus morreu e ressuscitou. À medida que o culto concentra-se no homem, e não em Deus, cria-se a noção falsa de que Deus é um simples espectador que acompanha nossa atividade, como um avô que se diverte com as brincadeiras de seus netos.

Mas a verdade é outra. Deus é perfeito em santidade (Mt 5.48), Criador e juiz do universo (Tg 4.12). Devemos-lhe tudo o que exalta a sua dignidade. No céu, onde o pecado não existe e a influência da rebelião do homem não se aproxima, os seres viventes dão incessante “glória, honra e ações de graças” (Ap 4.9). Os vinte e quatro anciãos prostrar-se-ão diante daquele que se encontra assentado no trono. Adorarão ao que vive… proclamando:  ‘’Tu és digno, SENHOR e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder…” (Ap 4.11).  Se nossa adoração não incentiva os membros da comunidade cristã a reconhecerem a dignidade de Deus e do Cordeiro (Ap 5.9,12), ela falha em princípio. Jesus Cristo é digno de receber o “poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória e louvor” (v. 12).

III. Tudo que tem fôlego, louve ao Senhor!

A verdadeira adoração sempre inclui e exprime a grandeza e a glória de Deus. Isso pode ser observado nas ocasiões em que Deus revelou-se aos homens de forma direta, em uma teofania. Quando o Senhor encontrou-se com Moisés, lemos: “Moisés escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus” (Êx 3.6). Isaías clama: “Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Is 6.5). Elias “envolveu o rosto no seu manto” (1 Rs 19.13). Paulo caiu por terra e“tremendo e atônito, disse: Senhor, que queres que eu faça?” (At 9.6, Almeida Revista e Corrigida). Vemos, portanto, que a adoração verdadeira sempre tem a Deus como objeto, o que condiciona Seus adoradores a um legítimo temor diante da Sua santidade e a um estilo de vida santificado. Em meio a esse formalismo no culto ao Senhor, Ele conclama Seu povo: “Oferece a Deus sacrifícios de ações de graças e cumpre os teus votos para com o Altíssimo” (v.14).Comprometa-se com Deus! Aí, sim, a maravilhosa e conhecida promessa do Salmo 50 repousará sobre os que adoram a Deus: “Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás”.

Conclusão

Deus preocupa-se mais com o coração do que com a forma, ainda que as Escrituras não admitam uma dicotomia entre corpo e espírito. É o próprio Deus quem toma a iniciativa na busca de verdadeiros adoradores. Ele deu seu filho para revelá-lo (Jo 1.18), para sacrificar-se em oferta expiatória, assim rasgou o véu que separava o santuário do Santo dos Santos (Mt 27.51; Mc 15.38; Lc 23.45). Jesus deixou o caminho livre para os pecadores se aproximarem do Pai santíssimo (Jo 14.6). Deus cumpriu a promessa, proclamada pelos profetas, de derramar seu Espírito sobre seus filhos (Ez 36.27). Somente por meio do Espírito é possível oferecer culto verdadeiro a Deus (Jo 4.24; Fp 3.3). Este fator central da adoração é invisível. A forma correta de adorar não garante que estejamos adorando “pelo Espírito”. Assim, Deus tem de revelar-se no Filho, perdoar os pecados que nos separam dele e dar-nos o Espírito para que, pela sua assistência, possamos responder-lhe. Deus se aproxima de nós no Filho, e nós nos aproximamos dele no Espírito.