sexta-feira, 22 de junho de 2018

Progresso Espiritual


A vida cristã é comparada diante das Escrituras Sangradas, como um progresso espiritual. Paulo escrevendo aos filipenses disseNão que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas vou prosseguindo, para ver se poderei alcançar aquilo para o que fui também alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo pelo prémio da vocação celestial de Deus em Cristo Jesus (Fp 3:12 -14; grifo do autor).

Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como a chuva serôdia que rega a terra (Os 6:3; grifo do autor).

Antes crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja dada a glória, assim agora, como até o dia da eternidade (2Pe 3:18; grifo do autor).

Existem outros textos nas Escrituras sobre o assunto, porém esses três são suficientes. Podemos entender por meio dessas passagens bíblicas, que a vida cristã está em continuo movimento, ela não é uma vida parada; jogada ao enfado do comodismo. Pelo contrário, a vida cristã não se conforma em viver uma vida vazia, sem propósitos, mas em sempre querer algo a mais de Deus. Para Calvino, a palavra conversão não significava apenas o ato inicial de abraçar a fé; significa também renovação e crescimento diários em seguir a Cristo. 

Se alguém não tem o desejo de crescer diariamente na sua vida cristã, é sinal que tal pessoa parou quanto ao progresso espiritual. Geralmente, quando alguém deixa de avançar nas coisas espirituais, é porque ela rejeitou os meios de graças, como ensinavam os puritanos; e os meios são: oração, estudo da Bíblia e os sacramentos (a Ceia). Não podemos rejeitar esses meios, eles nos alimentam na caminhada rumo a eternidade, rejeitá-los, é provar que a eternidade não tem valor algum.

Objetivo desse texto é nos ajudar quanto ao progresso espiritual, por isso, três passos importantes precisam ser praticados para alcançá-lo, esses são:

1. Investimento 
        
Para ter um investimento é necessário dispor de tempo, dedicação e interesse. Caso contrário, não haverá um progresso quanto a vida cristã.

Tempo. Sobre o tempo as escrituras nos dizem: Remindo o tempo; porquanto os dias são maus (Ef 5:16). Em outras traduções, fala sobre “aproveitarmos ao máximo cada oportunidade, porque os dias são maus. Todo aquele que quer crescer na graça, precisa investir no seu tempo. A cada dia que passa a maldade cresce no mundo, e mais perto da morte nos tornamos. Os puritanos ensinavam que o desfrutar da graça nessa vida é passageira, por isso que não podemos perder tempo com coisas fúteis. Portanto, saiba como separar suas obrigações e não deixe as coisas de Deus de lado, lembrando o argumento que você usa de não ter tempo é uma desculpa para você mesmo e não para Deus; porque Ele diz em sua palavra que “há tempo para todo propósito debaixo do céu” (Ec 3:1).

Dedicação. Precisamos nos dedicar no nosso crescimento espiritual, se quisermos realmente uma vida espiritual estável. Nosso maior exemplo nisso é o próprio Cristo, nEle encontramos um exemplo de oração, leitura das Escrituras e obediência a Deus (Lc 2:40 - 48). Os Evangelhos nos mostram que Jesus nunca teve uma espiritualidade relaxada, Ele sempre estava em progressão nas coisas divinas. Os apóstolos aprenderam isso de seu Mestre, temos alguns exemplos, como o de Pedro, mostrado no início, sobre crescer na graça e no conhecimento; Paulo, quando fala sobre sermos fervoroso no espírito, servindo ao Senhor (Rm 12:11) e outros.

Olhando para a história da igreja, temos vários homens de Deus que são um exemplo nessa área de dedicação, tanto na vida pessoal como na obra de Deus. Podemos citar nomes como o de João Calvino, Guilherme Farel, Martinho Lutero, John Wesley, Charles Spurgeon, Jonathan Edwards e outros; todos são exemplos de servos de Deus que seguiam a Cristo.

O exemplo de Cristo e desses outros homens de Deus, deve nos inspirar a viver uma vida piedosa. O propósito de Deus ao nos criar, foi glorificar o seu Santo nome.

Interesse. O fato de não crescermos espiritualmente, muitas vezes é resultado de não termos interesse pela espiritualidade cristã. Deus espera que seus filhos demonstrem interesse pela sua pessoa. Jesus ensinando no sermão do monte disseBem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos (Mt 5:6). Jesus descreve que bem-aventurado são aqueles que se “interessam pela progressão espiritual”. Encontramos Davi demonstrando isto pela presença de Deus: Como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus? As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite, porquanto me dizem constantemente: Onde está o teu Deus? (Sl 42:1-3). Que assim seja o desejo do nosso coração pela presença divina.

2. Examinar se estamos na fé

Paulo escrevendo a igreja de Corinto diz: Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados (2Co 13:5; grifo do autor). Paulo fala para a igreja de Corinto se autoanalisar, para averiguar se de alguma forma eles estavam na fé. Calvino fala sobre examinarmos a fé:


“Aprendamos a examinar-nos e a averiguar se aquelas marcas interiores pelas quais Deus distingue seus filhos dos estranhos nos pertencem, a saber, a raiz viva da piedade e da fé”. “No ínterim, os fiéis são ensinados a se examinarem com solicitude e humildade, para que a segurança carnal não se insinue, no lugar da certeza de fé”.

Para saber se estamos progredindo na fé, devemos provar a nós mesmos quanto a isto, e de qual forma? A primeira coisa a se fazer, é termos um panorama da nossa vida e nos fazermos perguntas, como: será que estou buscando a Deus mais hoje do que antes? ou eu buscava a Deus mais no passado? Perguntas como essas, nos ajudam a refletir em que tipo de cristianismo estamos vivendo.

A segunda pergunta a fazer, é se estamos no primeiro amor. Quando não estamos mais vivendo esse amor, as escrituras nos dão diretrizes para recuperarmos ele:

Tenho porém contra ti, que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te pois donde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres (Ap 2:4; grifo do autor).

Cristo não estava satisfeito com o tipo de amor que a igreja de Éfeso estava oferecendo, por isso Ele disse: Tenho, porém, contra ti, que deixaste o teu primeiro amorSe Jesus não estava satisfeito com o amor dessa igreja, será que Jesus está satisfeito com o tipo de amor que você dá a Ele? Se não, saiba que Ele tem algo contra você.

O texto aponta três formas de recuperarmos o amor perdido. Primeiro: “lembra-te donde caíste”. Tenho que averiguar qual pecado causou esse esfriamento. Segundo: “arrepende-te”. Depois de averiguar, tenho que me prostrar ao pé da cruz e pedir perdão pelos pecados cometidos. Terceiro: “praticar as primeiras obras”. Após pedir perdão de Cristo, devo praticar as primeiras obras que o pecado me privou.

3. Jejum  

O jejum hoje é algo que muitos não dão valor. E geralmente isso acontece quando as pessoas não possuem conhecimento sobre o assunto ou quando não há interesse. Mas quando olhamos para o Antigo e o Novo Testamento, encontramos pessoas praticando o Jejum.

No Antigo Testamento, encontramos o profeta Joel convidando a nação a se humilhar diante de seus pecados, por meio do jejum (Jl 1:14); Esdras jejua por proteção (Ed 8:21); Davi afligia sua alma com jejum (Sl 35:13). No Novo Testamento, temos Cristo ensinando sobre isto no sermão do monte. E o ensino de Jesus, não era como o dos fariseus, que jejuavam para obter status, Ele orientava a realização do jejum com discrição, porque assim livraria seus discípulos do orgulho e os levaria para o caminho da humildade.

O jejum particular está ligado a atos externos e internos. Os atos externos estão relacionados com a abstenção de alimentos, seja comida ou água, levando-se em conta as condições de saúde (2Sm 3:35; Ed 10:6; Dn 10:3; Et 4:16; At 9:9). A parte interna, está relacionada a dois fatos ou aspectos: oração e arrependimento. O arrependimento se compõe em duas partes: primeiro, profunda tristeza pelos pecados passados. Segundo, correção da vida com vista no futuro. Já a oração está fundamentada em realizar fervorosos pedidos por coisas boas e suplicar a Deus que afaste de nós todo o mal.

O jejum muitas vezes é praticado de forma errada, as pessoas quererem barganhar com Deus. O jejum serve para mudar o cristão e não a Deus. Esse é um período onde o cristão se humilha diante do Senhor, reconhecendo seus pecados, mortifica os desejos carnais, procura renovo espiritual. O jejum serve para abrir nosso apetite para as coisas espirituais. Assim como um remédio que é ingerido, e aumenta o nosso apetite para que fiquemos saudáveis e fortes, o mesmo devemos fazer com o jejum, para que assim venhamos crescer na graça e no conhecimento.

Se você sente que sua vida cristã está acomoda, fria e precisando de renovo espiritual, pratique o jejum, sua vida irá mudar completamente, mas sempre tenha em mente, que tudo isso deve causar uma mudança que leve você a se parecer mais com Cristo Jesus.

Conclusão     

Os princípios que podemos colocar em prática para obter um progresso espiritual são: investimento, que requer interesse, tempo e dedicação. Analisarmos se estamos na fé e na pessoa de Cristo. E por último, o jejum, que deve ser usado como um meio para o crescimento e assemelhaçao da imagem do nosso Senhor Jesus Cristo.

Lembrando também, que não existe fé sem obras, se realmente fui alcançado pelos méritos de Cristo na cruz, automaticamente essa fé vai me levar as boas obras. Como disse Paulo: Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas (Ef 2:10).

Sidney Muniz

Notas:
Teologia Puritana de Joel Beeke
A prática da Piedade de Lewys Bayly
Os puritanos e a Conversão de Samuel Bolton, Nathaniel Vincent e Thomas Watson
Espiritualidade Reformada de Joel Beeke